Reminiscências
O Papa morreu, o Flamengo perdeu, eu voltei de Angra, mas a vida continua. É verdade...Tudo ao mesmo tempo agora. Em 1978, lembro de quando morava em Brasília e estudava no Colégio Nossa Senhora de Fátima, correu a notícia que o papa Paulo VI tinha morrido, as aulas no dia de sua morte foram suspensas. Eu era apenas um garoto, e tinha gostado da idéia de ir mais cedo pra casa, teria mais tempo para brincar. Um mês depois a mesma coisa, João Paulo I faleceu, sem aula de novo. Sem entrar muito no assunto, parece que ele foi envenenado por alguém do Vaticano, ele era um sujeito com idéias estapafúrdias no conceito da Cúria, há um boato que queria derreter parte do ouro do Vaticano para reverter o valor em doações aos famintos da África. Até hoje não se sabe se isso é verdade. Aí veio João Paulo II, cara de bom samaritano, acabou ficando 26 anos no papado. Ele tinha um conceito progressista na área social, mas era conservador nos assuntos relativos à Igreja. Acho o fim da picada a Igreja reprovar os métodos contraceptivos, a pesquisa com células-tronco e o aborto de fetos anencéfalos. Sobre o Flamengo, não há muito o que dizer, time sem ataque não chega a lugar nenhum. E Angra? Bom..., depositei todas as minhas esperanças no trabalho que me foi oferecido naquela cidade. Comprei até um livro que o dono do jornal tinha sugerido, dizendo que mostrava um pouco do que eu iria passar saindo de uma cidade grande e indo morar numa cidade pequena. Fiquei hospedado na casa dele, trabalhei após o horário de expediente, apurei, redigi e sugeri pautas para o jornal, tudo conforme manda o figurino. Ele tinha dito que assinaria a minha carteira profissional, e nada. Até o momento em que ele propôs que eu fizesse uma matéria sobre prostituição infantil para saber se eu tinha capacidade de fazer uma boa apuração. Eu fiz. Apurei, entrevistei prostitutas, promotor público, comandante da polícia militar, secretaria de Ação Social da cidade, comissariado de menores, entrei na internet, enfim, me escalpelei para fazer tudo o melhor possível. A editora do jornal disse que queria tudo em 4 matérias diferentes. Ok! Tudo feito, o dono do jornal, que até o momento não tinha lido nada do que eu tinha apurado, e que também não deu uma pauta, como se faz em qualquer jornal que se intitula profissional, leu a matéria depois de devidamente redigida, me chamou pra conversar em separado numa sala, e resumindo, disse que não tinha gostado pois estava muito formal, que tinha que ter mais emoção. Então porque não conversou comigo para dizer qual o rumo que queria para o tom da matéria? Faz as coisas nas coxas, e depois que me matei de fazer uma puta matéria, vem dizer pra mim com a cara mais deslavada que a matéria estava formal demais!! Acho que ele usou esse argumento apenas para me detonar, pois sutilmente eu dava a entender que iria morar sozinho, e ele queria que eu morasse com os outros funcionários do jornal que também não são de Angra, para ficar mais barato o auxílio-moradia que ele iria pagar. E porque ele deve ter sentido que não ia dar pra me enrolar com o pagamento, situação recorrente naquele jornal conforme havia observado, tanto que vim a receber o dinheiro do meu trabalho, 18 dias após ter sido dispensado. Mas tudo bem. Eu só queria em alguns momentos entender os desígnios de Deus. Pra que fui pra lá se não deu certo? Vida que segue, sem dinheiro no bolso e sem emprego de novo, mas vida que segue...



